28 05 2022

A propósito do projecto editorial de Nuno Miguel Borges

Carlos Moura Martins Porto, 26 de Maio de 2022

Tenho acompanhado de forma intermitente o projecto editorial do Nuno Miguel Borges. É um trabalho orientado para obras de arquitectura portuguesa actuais. Cada livro tem um carácter monográfico e procura transmitir-nos uma experiência que vai do conhecimento do lugar, na sua forma inicial, ao desenvolvimento do projecto, ao seu processo de transformação durante a obra até ao momento final, onde esse lugar adquire uma forma nova. O tempo longo que este método implica é transportado para o livro não apenas na legibilidade do processo de realização da obra, na complexidade e circunstâncias de cada momento, mas também, embora menos visível, na construção do objecto-livro, com as suas múltiplas vicissitudes, obstáculos e conquistas, incluindo aspectos técnicos como o tipo de impressão, de papel ou de corte. Assim, cada publicação tem o seu mundo próprio no longo processo de elaboração, desde a génese à conclusão da edição. O modelo de realização de cada livro envolve a selecção da obra de arquitectura, a escolha dos temas e a eleição dos intervenientes — fotógrafos, historiadores, críticos, designers gráficos. Também constante é o diálogo com os autores das obras, materializado em entrevistas presentes na publicação. Pelo seu carácter processual, os livros editados por Nuno Miguel Borges têm a virtude de nos dar um conhecimento amplo de uma obra de arquitectura, não como um facto novo, cristalizado no tempo, mas como um acontecimento vivo que continuará o seu percurso de transformação.



Carlos Moura Martins é licenciado em Arquitectura pela FAUP (1986) e Doutorado em Teoria e História da Arquitectura pelo DARQ/FCTUC (2014), instituição onde é Professor Auxiliar. De 1986 a 2000, colaborou com o arquitecto Fernando Távora; e de 1986 a 2006, teve escritório em conjunto com o arquitecto Elisiário Miranda.