19 03 2021 Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Alcobaça

Primeiras impressões

André Princípe Alcobaça, 25 de Novembro de 2019

Este trabalho tem várias coisas novas. É a primeira vez que fotografo um trabalho de arquitectura. É um edifício, num mosteiro que já conhecia, que tem um enquadramento histórico muito forte, e que será adaptado a um hotel por um arquitecto que respeito muito e que é o meu arquitecto favorito. Por isso, é um projecto de alguma maneira com pé — no sentido de que não estou a explorar um território desconhecido ou a procurar não sei o quê.

Um fotógrafo precisa sempre de um território, seja físico ou mental. Neste trabalho, sei muito bem qual é o meu território: um edifício. Isto torna a minha vida mais fácil. Mas, depois, não posso, ou não quero, dar um peso demasiado narrativo e documental às fotografias e perder a minha espontaneidade, a relação normal que tenho com a imagem. Um dos desafios é manter, no tempo em que estou no Claustro do Rachadouro, a minha maneira de olhar, o meu instinto, e tirar uma fotografia sem pensar se vai fazer sentido no livro. Reagir de uma maneira intuitiva e equilibrar isso com o meu pensamento, que vou cuidando pelo estudo. Há pouco tempo, o Eduardo Souto Moura contou-me durante uma conversa que quando projectou o estádio do Braga não percebia nada de futebol, mas foi estudar para fazer o projecto. Eu não percebo nada de arquitectura, mas oiço, olho e penso.

Eu não estou na obra para ilustrar ideias, não gosto que a fotografia ilustre uma ideia qualquer — para isso, se calhar, o texto é melhor. O meu desafio é andar pelo claustro, durante as horas, os dias, a fotografar. É um estado de espírito. Mais tarde, vou ter o momento de editar, e aí posso dar forma ao que fiz.

Mais do que fazer grandes fotografias, quero fazer um ensaio, um bom ensaio. Quero que exista nas fotografias uma certa repetição: sentir a passagem do tempo, mostrar o quanto demorou a fazer a obra, reconhecer as estações do ano. Quero fazer variações, porque o edifício tem corredores muito longos e eu pretendo repeti-los para mostrar o que é que mudou durante a obra. Quero, principalmente no fim do livro, que se conheça a forma como decorreu este projecto do Eduardo Souto de Moura. É para mim a coisa mais importante neste ensaio. Ouvir o Souto de Moura e saber que a sua entrevista para o livro faz as suas palavras sobre a obra viver ao lado das minhas fotografias é algo que me entusiasma. Faz-me acreditar que o livro pode ser uma forma potente de conhecer a sua forma de trabalhar e de perceber o que ele fez aqui. O tipo de livro de que eu gosto como leitor.

Este trabalho é também um desafio técnico. Normalmente, não uso tripé ou fotómetro. Na primeira vez, em Outubro de 2018, não trouxe o fotómetro porque me esqueci e pensei que ia falhar algumas fotografias. Não falhei uma única. Da segunda vez, não trouxe o fotómetro de propósito. Eu calculo sempre intuitivamente, da experiência, o tempo de exposição da fotografia. Isto pode parecer um pouco irrelevante, mas para mim é um desafio, porque estamos a falar, às vezes, de exposições de três minutos, quatro minutos, seis minutos. É exigente, porque nesta fotografia de arquitectura trabalho em profundidades de campo muito grandes para ficar tudo focado. Tenho sempre o diafragma em 16,22, e isso manda. Normalmente, nas fotografias que tiro, o que manda é o tempo, tenho de ser muito rápido — nos 1/125, 1/250 segundos — e depois logo vejo o diafragma. Aqui, o diafragma vem primeiro, e isso muda tudo. É engraçado como neste projecto é o espaço que manda, e o tempo eu espero: fico ali dois minutos, três minutos — é uma coisa nova para mim —, mas enquanto estou a carregar no disparador, a fotografia está a ser feita. É excitante pensar na fotografia de uma maneira que não estou habituado. Estar três minutos com o dedo no botão e a fotografia estar a acontecer é uma coisa que me faz pensar de outra maneira no acto de fotografar. Fico a ver a luz mudar dentro da fotografia.

Fotografar arquitectura está a ser diferente e exigente. É um esforço muito técnico. Por outro lado, é mais fácil, porque o edifício não se mexe, não foge para lado nenhum, não desaparece. Normalmente, as fotografias que faço podem ser, por exemplo, de uma senhora a correr para apanhar um autocarro; mas se não estive no sítio certo e no momento exacto, a fotografia perdeu-se. No Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Alcobaça, há mais tempo. Pode-se até falhar e fazer outra vez.